Editorias / Investigação
Negociação de veículo foi usada como 'isca' e alvo seria homem em dívida com executores
Dourados News Cristina Nunes
A Polícia Civil confirmou nesta quarta-feira (26) que Vitor Orsini, de 19 anos, foi morto por engano durante uma emboscada que tinha como alvo outra pessoa. O jovem foi assassinado a tiros na tarde de 7 de agosto, dentro da garagem da família, na avenida Hayel Bon Faker, em Dourados.
A confirmação foi feita durante coletiva de imprensa pelo delegado Lucas Albé, do Setor de Investigações Gerais (SIG) na manhã desta quarta-feira (26), que detalhou o avanço das investigações e afirmou que o inquérito está na reta final, embora algumas diligências ainda estejam em andamento.
Segundo o delegado, desde os primeiros minutos após o crime, a equipe passou a analisar informações, ouvir testemunhas e realizar diligências para identificar a motivação e os envolvidos.
A principal linha de investigação surgiu a partir da análise do celular de Vitor. Os policiais encontraram uma conversa ocorrida na manhã daquele dia envolvendo uma suposta negociação de veículo e um encontro marcado para as 14h, justamente na garagem do pai do jovem.
A negociação, segundo a investigação, teria sido utilizada como isca para atrair outra pessoa ao local, que seria o verdadeiro alvo da execução.
“Eu passei o primeiro final de semana inteiro em posse do aparelho celular do Vítor, analisando conversas, informações, checando se havia envolvimento de outras pessoas com ele, com familiares, se havia ameaças”, afirmou o delegado.
Segundo Albé, nenhuma dessas hipóteses encontrou respaldo nos elementos analisados.
“Tudo isso foi descartado porque o telefone dele não tinha nenhuma outra informação que levasse a determinar que o crime teria sido cometido por alguma ameaça pretérita, o envolvimento com alguma pessoa, o envolvimento com atividades ilícitas, nada.”
Foi após a análise das mensagens e das demais informações que os investigadores conseguiram chegar à hipótese de que Vítor havia sido confundido com outra pessoa.
Alvo não apareceu no horário marcado
O homem apontado como verdadeiro alvo foi formalmente ouvido pela Polícia Civil durante a investigação. Segundo o delegado, ele confirmou que havia sido atraído para a garagem e que deveria comparecer ao local naquele horário.
No entanto, ele estava fazendo compras acompanhado da esposa e acabou se atrasando enquanto realizava outras atividades, entre elas uma passagem por uma loja de materiais de construção.
Quando seguia para a garagem, soube que Vítor havia sido morto e decidiu não ir ao local.
A Polícia Civil acredita que o atraso de poucos minutos foi determinante para o desfecho. Como os executores esperavam encontrar o alvo na garagem por volta das 14h, acabaram confundindo Vítor com o homem que deveria ser assassinado.
“Vocês mataram a pessoa errada” teria sido a informação repassada pelos contratantes aos executores quando eles retornaram a Ponta Porã após o crime. De acordo com o delegado, também houve a determinação para que os criminosos voltassem a Dourados para concluir a execução contra o verdadeiro alvo.
Executores conheciam apenas uma fotografia do alvo
A investigação aponta que os dois homens responsáveis pela execução não conheciam pessoalmente o alvo. Eles teriam recebido uma fotografia e visto a imagem apenas algumas vezes antes do crime.
O delegado explicou que, no momento da ação, o piloto da motocicleta teria apontado Vítor como sendo o homem que deveria ser morto.
A Polícia Civil considera que houve uma falha na identificação, agravada pelo fato de os envolvidos não serem da região. Segundo o depoimento do executor, o piloto também fazia uso de drogas e estaria sob efeito de entorpecentes no momento da ação.
Posteriormente, os dois executores realizaram reconhecimento fotográfico do verdadeiro alvo e, segundo a Polícia Civil, foram categóricos ao apontá-lo como a pessoa cuja fotografia havia sido apresentada a eles antes do crime.
Dívida de cerca de R$ 300 mil seria a motivação
A investigação identificou uma relação financeira entre o verdadeiro alvo e um empresário de Ponta Porã apontado como um dos envolvidos na organização do crime.
Conforme o depoimento prestado pelo homem que seria assassinado, o empresário teria uma dívida com ele que começou em aproximadamente R$ 240 mil e já ultrapassaria R$ 300 mil.
A Polícia Civil acredita que essa dívida tenha sido a motivação para a tentativa de execução. A origem exata do débito, porém, ainda não foi esclarecida.
O delegado afirmou que existe a possibilidade de a dívida estar relacionada ao tráfico de drogas, considerando o histórico dos envolvidos, mas ressaltou que essa hipótese ainda não foi confirmada.
Adolescente furtou motocicleta e guiou executores
A investigação também revelou a participação de um adolescente de 17 anos, que teria prestado suporte logístico à execução.
Segundo a Polícia Civil, ele furtou uma motocicleta durante a madrugada do dia 7 e, posteriormente, entregou o veículo aos criminosos que haviam vindo de Ponta Porã.
Além de fornecer a motocicleta, o adolescente teria guiado os executores pelas ruas de Dourados até a garagem, já que eles não conheciam a cidade. Dessa forma, teria facilitado a chegada dos criminosos ao endereço e a identificação do local onde o alvo deveria estar.
O adolescente foi apreendido e está internado na Unei.
Executores vieram de Ponta Porã em BMW
De acordo com a investigação, os dois executores foram levados de Ponta Porã para Dourados em uma BMW por dois dos envolvidos que atualmente são procurados pela Justiça.
Conforme apurado pelo Dourados News, a Polícia Civil solicitou apoio à PRF (Polícia Rodoviária Federal) para auxiliar na identificação e no levantamento de informações relacionadas ao veículo.
Os investigadores conseguiram comprovar que o automóvel havia sido vendido recentemente e estava em posse de um dos investigados.
Imagens e outros elementos também apontaram que o veículo circulou nas proximidades da garagem no momento do crime. A suspeita é de que os dois foragidos que trouxeram o piloto e o pistoleiro tenham passado pelo local para verificar se a execução havia sido realizada.
Executor não veio de Brasília para matar Vítor
Denis Barbosa de Melo, apontado como executor dos disparos, é natural de Brasília. Segundo Albé, inicialmente circulou a informação de que ele teria vindo de Brasília especificamente para cometer o assassinato.
A investigação, entretanto, descartou essa versão.
“Ele não veio de Brasília para cometer esse crime. Ele já estava na região há cerca de três ou quatro meses. Ele tinha vindo com esse movimento na prática do tráfico de drogas.”
Segundo o delegado, o homem atuava no transporte de entorpecentes entre a região de fronteira e grandes centros.
“Ele veio aqui através de frete de entorpecentes para a região central, para os grandes centros de São Paulo e Rio de Janeiro. Não era pistoleiro profissional.”
Ainda conforme o depoimento, o executor teria contraído uma dívida na região de fronteira e recebido dinheiro para participar da execução.
Empresário foi preso e polícia apreendeu dinheiro, joias e munições
Durante o cumprimento dos mandados em Ponta Porã, a Polícia Civil prendeu o empresário Claudio Henrique de Arruda, 43, dono de uma academia e apontado como responsável por manter as conversas com Vítor na manhã do crime e por organizar o encontro que levaria o verdadeiro alvo até a garagem.
Na residência dele, os investigadores apreenderam munições calibre .380, R$ 10 mil em dinheiro e joias avaliadas em aproximadamente R$ 70 mil, além de um aparelho celular que será submetido à perícia.
A partir das diligências, a Polícia Civil afirma ter estabelecido vínculos entre os executores, o piloto, os contratantes, o empresário e o adolescente que teria fornecido o suporte logístico.
Segundo o delegado, as evidências reunidas até o momento são consideradas concretas e apontam para uma atuação coordenada entre os envolvidos.
Seis pessoas são apontadas como envolvidas
Ao todo, a investigação chegou a seis pessoas suspeitas de participação no crime.Quatro já foram presas ou apreendidas, sendo o homem apontado como executor dos disparos, o piloto da motocicleta, o empresário apontado como articulador da ação e o adolescente que teria prestado suporte logístico.
Outros dois investigados, Marcos Antonio Olmedo Vera, de 23 anos, e Jeferson Lopes, de 31, estão sendo procurados pela Justiça.
Segundo a Polícia Civil, os dois são apontados como responsáveis pela contratação dos executores e pela condução deles de Ponta Porã até Dourados.
Verdadeiro alvo teme nova tentativa
A confirmação de que Vítor não era o alvo também trouxe a possibilidade de uma nova tentativa contra o homem que escapou da emboscada.
Segundo o delegado, ele inicialmente não tinha conhecimento de que poderia ser vítima de uma execução. Depois de receber informações da própria polícia e tomar conhecimento dos elementos reunidos na investigação, passou a acreditar que era, de fato, o alvo.
O homem estaria assustado e manifestou interesse em deixar Dourados por temer uma nova investida.
A Polícia Civil ainda não sabe se existe atualmente uma ordem para uma nova tentativa de execução, mas confirmou que, após o retorno dos criminosos a Ponta Porã, os contratantes teriam determinado que eles voltassem a Dourados para “terminar o serviço”.
Investigação ainda não está totalmente encerrada
Apesar de estar na fase final, a investigação ainda não foi concluída.
Os aparelhos celulares apreendidos durante a operação ainda passarão por perícia, além da análise de documentos e de outros elementos reunidos pelos investigadores.
O delegado também afirmou que a possibilidade de existência de outros mandantes ou envolvidos não está descartada.
Até o momento, porém, a Polícia Civil sustenta, com base nas evidências reunidas, que a motivação do crime está relacionada à dívida de aproximadamente R$ 300 mil entre o empresário de Ponta Porã e o homem que deveria ser assassinado.
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