Editorias / Golpe
Operação Sophia cumpre mandado em Dourados contra grupo de falsas doações
Dourados Informa Luiz Guilherme
Dourados foi um dos municípios alcançados pela operação Sophia na manhã desta terça-feira (14/7), durante ofensiva contra organização criminosa investigada por aplicar golpes milionários por meio de falsas campanhas de arrecadação na internet. No município, equipes da Defron (Delegacia Especializada de Repressão aos Crimes de Fronteira) prestaram apoio ao cumprimento de um mandado de prisão preventiva.
A operação é coordenada pela DRCPE (Delegacia de Repressão aos Crimes Patrimoniais Eletrônicos) e ocorre simultaneamente no Rio Grande do Sul, Paraná, São Paulo e Pernambuco.
Ao todo, estão sendo cumpridos 17 mandados de busca e apreensão e 19 de prisão preventiva em endereços ligados aos investigados e às estruturas utilizadas para operacionalizar os golpes. A ação conta com o apoio das Polícias Civis dos estados envolvidos e de equipes especializadas responsáveis pela preservação de provas digitais.
Segundo a investigação, o grupo criminoso criava falsas campanhas beneficentes utilizando imagens, vídeos e histórias reais de pessoas em situação de vulnerabilidade, principalmente crianças em tratamento de doenças graves, para sensibilizar internautas e convencê-los a fazer doações.
O caso que deu origem à investigação envolveu uma criança em tratamento contra o câncer. Sem autorização da família, os investigados utilizaram fotos e vídeos da menina para simular uma campanha destinada ao custeio do tratamento. Apesar das doações realizadas, nenhum valor foi repassado aos familiares.
Como o golpe funcionava
As investigações apontaram que os criminosos impulsionavam anúncios pagos no Facebook e no Instagram por meio de páginas como “Clube de Doadores”, “Doadores com Amor” e “Unidos pelo Amor”, ampliando o alcance das publicações fraudulentas.
Ao clicar nos anúncios, as vítimas eram direcionadas para páginas falsas, desenvolvidas para imitar plataformas conhecidas de arrecadação, especialmente a Vakinha.
Nesses sites, o usuário escolhia o valor da suposta doação e recebia um QR Code Pix ou um código “copia e cola”. No entanto, o dinheiro era enviado para contas bancárias, empresas de fachada e intermediadoras de pagamento controladas pelo grupo.
Para dificultar o rastreamento, a organização utilizava contas de terceiros, domínios registrados em provedores estrangeiros, ferramentas de proxy, mecanismos de camuflagem de sites e perfis preparados exclusivamente para aplicar os golpes.
A Polícia Civil identificou que o esquema possuía uma estrutura altamente organizada, com divisão de tarefas entre seus integrantes. Os investigados eram responsáveis pela criação e hospedagem de sites falsos, registro de domínios, configuração de servidores, desenvolvimento de páginas de pagamento, produção de vídeos e peças publicitárias fraudulentas, compra e administração de contas em redes sociais e impulsionamento dos anúncios.
Durante a investigação também foram encontradas evidências do uso de tecnologias de inteligência artificial, como ferramentas de deepfake, clonagem de voz, sincronização labial, criação de avatares digitais, manipulação de áudio e vídeo, além de recursos para ocultar a identidade dos responsáveis e camuflar as páginas fraudulentas.
Os investigadores ainda localizaram indícios de pesquisas realizadas pelo grupo para encontrar novas vítimas em situação de vulnerabilidade, especialmente crianças com doenças graves, o que demonstra a continuidade e o elevado grau de organização da atividade criminosa.
Investigação identificou movimentação milionária
A apuração começou após a mãe da criança denunciar à Polícia Civil que imagens da filha estavam sendo utilizadas em anúncios patrocinados nas redes sociais.
Com o avanço das diligências, a DRCPE conseguiu mapear o caminho do dinheiro e identificar diversos investigados com funções específicas dentro da organização.
Somente na falsa campanha que originou o inquérito, foram rastreados cerca de R$ 294,5 mil movimentados por meio de chaves Pix e gateways de pagamento.
Além disso, a investigação revelou movimentações financeiras ainda maiores em contas e empresas utilizadas pelo grupo. Uma empresa apontada como principal hub financeiro da organização teria movimentado mais de R$ 1,7 milhão durante o período investigado.
Saiba mais
A ação recebeu o nome operação Sophia em referência à criança que teve sua imagem utilizada indevidamente pelos investigados. Segundo a Polícia Civil, a escolha simboliza a exploração criminosa da dor, da vulnerabilidade e da solidariedade da população para dar aparência de legitimidade às campanhas falsas.
Durante o cumprimento das ordens judiciais, as equipes buscam apreender celulares, computadores, documentos, dispositivos de armazenamento, cartões bancários, contratos sociais, registros de acesso, credenciais de plataformas digitais e outros materiais que possam fortalecer as investigações.
Ao final da operação, a Polícia Civil reforçou o alerta para que a população tenha cautela antes de realizar doações pela internet. A orientação é confirmar a autenticidade das campanhas diretamente com a família ou instituição beneficiada, verificar se o destinatário do Pix corresponde efetivamente ao beneficiário e desconfiar de anúncios patrocinados com forte apelo emocional.
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